segunda-feira, 25 de julho de 2011

They tried to make me go to rehab...


Aos 27 anos de idade (emblemático por sinal), morre a cantora inglesa Amy Winehouse. Em todos os veículos de comunicação e comentários pelas ruas, as pessoas julgam a morte dela como prematura e tendem a condenar seus comportamentos e atitudes.
Como um reles apreciador de uma música ou outra dela, não me cabe aqui julgar se ela era alguém que realmente precisava de ajuda ou se ela escolheu mesmo isso. Sim! Escolheu! Afinal somos condenados a escolher, como diria Sartre. Mas me refiro aqui a uma escolha consciente, no sentido de ter sido motivada por uma vontade mesmo.
De qualquer forma, a questão da morte sempre é algo que me afeta. Especialmente mortes que suscitam julgamentos como os mencionados. Honestamente me incomoda ouvir as pessoas recriminando e se compadecendo dela como se já soubessem de antemão que sua morte lhe foi algo completamente alheio e estranho. A própria mãe dela disse que era questão de pouco tempo.
Enfim, acredito que ela viveu seus 27 anos bem melhor que muita gente que está com seus 80 e ainda se esquivando e se privando de muita coisa. A morte é algo "natural", é a totalização do projeto, no sentido heideggeriano. Não que devamos assisti-la de maneira impassível e desprovida de emoção, mas que possamos lembrar que acontecimentos como esse abrem a possibilidade de reflexão sobre o sentido de nossas próprias vidas. É justamente no ser-para-morte que abrimos mais nossa compreensão sobre nós mesmos, nossa própria existência. Os julgamentos morais praticamente irrefletidos só nos encobrem tal possibilidade.
Situações como esta não servem simplesmente para que possamos opinar na fila do pão ou no ponto de ônibus, mas devem acima de tudo nos trazer tematicamente a nossa responsabilidade sobre cada projeto de vida que construímos. A reflexão sobre o sentido da existência, que é assunto ôntico de cada um, é a mais originária e fundamental do ser humano.
A Amy já não é mais possibilidade, sua existência acabou, ela fez suas próprias escolhas, e você? Já pensou hoje sobre o que quer verdadeiramente da sua vida?

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Temporalizando...


Às vezes o maior medo que temos na vida é de estarmos perdendo tempo. Isto parece sempre ser algo tão precioso... Não é novidade certamente para ninguém que devemos esse preciosismo ao caráter finito de nossa existência. Temos vários teóricos que versam sobre esta temática e suas implicações, especialmente Martin Heidegger e Jacques Lacan.
O tempo é onde se descortina o horizonte do ser, é onde ele se realiza. Heidegger nos diz que "tempo é sempre tempo para alguma coisa", definindo precisamente o que ele chama de caráter da interpretabilidade da temporalidade. Temos com o tempo, como com os entes, também uma relação de instrumentalidade a qual podemos assumir propriamente ou não.
Freud apud Lacan nos traz a notícia de que o tempo é sempre o tempo de cada um. Ele se constitui individualmente a partir das marcas que nos são imprimidas. Ter esta compreensão é de fundamental importância para as relações, pois diz respeito à forma como cada um se posiciona diante do que constitui o desejo, a saber, a falta. Esta que nos coloca na eterna corrida pelo sentido ao redor do objeto perdido, o Das Ding.
É possível perceber então em ambos os teóricos que a questão do tempo é, acima de tudo, questão de sentido. Implica então que "perda de tempo" é "perda de tempo para alguma coisa". Esse "para alguma coisa" faz toda a diferença, pois é o sentido que cada um atribui ao que assume em sua existência, ou ao que deixa de assumir. Neste sentido, a sensação de vazio causada pela sensação de "perda de tempo" pode ser colocada como uma falta de sentido diante daquilo que colocamos como propósito ou finalidade de nossa existência.
No saber psicanalítico, a sensação de "perda de tempo" pode ser colocada no lugar do objeto de desejo como uma fuga para não assumi-lo. Ou seja, diante daquilo pelo qual temos de pagar um preço podemos resistir colocando a "perda de tempo" como explicação para algo que não queremos ter que lidar.
A ética da Psicanálise diz de um posicionamento que possibilite ao sujeito sustentar a falta, ou seja, sustentar desejo. Sendo assim, dizer que algo é "perda de tempo", deve sempre levar em consideração seu "tempo para o desejo", que se recobre de sentido, ou sintoma, que pode muito bem surgir como resistência colocando o eu em sofrimento por um não posicionamento em seu tempo enquanto sujeito. Dessa forma o trabalho analítico pode auxiliar a uma "temporalização honesta" com o sujeito.
Certamente a pobre exposição feita aqui sobre estes modos de concepção do tempo são insuficientes para uma analítica mais detalhada do fenômeno da temporalidade. Além do mais é um tema extremamente complexo e que me deixou mesmo confuso várias vezes ao longo deste pequeno texto. Todavia o fundamental talvez seja de se perceber esta relação de sentido com a finitude tão discutida neste blog. Mas por que isso de novo? Porque é mais difícil dizer o mesmo do mesmo, e também porque o sentido nunca se esgota.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Amor e egoísmo.

Seja qual for a forma de amor, será sempre egoísta. "Ohh! Blasfêmia!", muitos dirão, porém há que se ressaltar que qualquer ação humana visa um retorno. Ninguém dá nada de graça, o aparelho psíquico suporta o desprazer, através do princípio da realidade, para adiar uma satisfação que pode ser vivida como desconfortável pro ego naquele momento, mas certamente em algum momento virá a descarga e o prazer, para manter o equilíbrio pulsional de novo.
Nós construímos algumas noções como o amor, a moral e o altruísmo para que a existência em sociedade seja possível, e também para dar sentido a desejos que sentimos e precisamos fazê-los representar. No fim das contas, o narcisismo é constitutivo e nunca sai de cena.
Sejamos francos! Abaixo a hipocrisia! Mesmo o que pode parecer o mais nobre (e desesperado) ato humano de amor, o sacrifício, trará louros e glórias à pessoa sacrificada. Isto não pesa? Se ela vive, seguiu um apelo pulsional extremamente forte de se autopreservar, mas, se o infortúnio vier a lhe acometer, se livrará das dores e mazelas deste mundo, além de ter dado um sentido à morte (à vida) no último de seus instantes.
No fim das contas, a palavra pode não ser exatamente egoísmo, afinal ela parece se remeter ao "ego", mas de alguma maneira não nos perdemos de vista, não nos tiramos de nosso próprio foco, afinal, é o nosso foco que nos foca ao tentarmos não nos focar de qualquer forma. Além de que, se não queremos nos focar, não queremos olhar para nós mesmos de alguma forma...
Enfim, amor incondicional não existe, e Lord Byron morreu junto com o romantismo do mau-do-século faz um tempinho já. Não sejamos ingênuos... Mas amemos! Amemos conscientemente, amemos sabendo que por mais que façamos ao outro, estamos fazendo a nós mesmos também. Já diria aquela máxima bíblica: "Ama ao próximo como a ti mesmo". Deve ser porque amar ao próximo é amar a si mesmo também.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Do exercício do pensamento.

Pensando a trajetória do pensamento ocidental é possível ter clareza a respeito de algo que se perdeu e da distância que estamos das próprias coisas. A partir do desenvolvimento do conhecimento científico, antes mesmo, com Galileu e a retirada do conhecimento do âmbito do concreto para o âmbito da abstração, o exercício do pensamento foi ficando cada vez mais comprometido a ponto de não conseguirmos (e nem querermos) sequer pensar os fundamentos que geraram os saberes que construímos em nossas masmorras do conhecimento.
Pessoas que dedicaram a vida toda a construir um saber próprio e autêntico, que se prestaram a mostrar a necessidade de revisitar os fundamentos de tudo que se julga saber, são meramente deixadas de lado em prol de se querer simplesmente reproduzir um saber técnico pelo desespero do assombroso "Mercado de trabalho".
A importância da técnica é inegável, mas quando se cai num automatismo, coisas que o próprio Mercado de trabalho exige como flexibilidade, criatividade, idéias inovadoras, se tornam uma missão cada vez mais complexa e difícil para esses operários do saber.
Acredito que pessoas que tem um olhar diferenciado, que conseguem pensar as coisas além do que está simplesmente dado, ou seja, tentando pensá-las em todas as suas possibilidades e com uma visão crítica do mundo, tem grandes chances de adentrar o Mercado de trabalho. Pois o exercício do pensamento abre portas para um desenvolvimento necessário anterior à técnica. Pois de nada ela vale isolada de quem a utiliza. E se for um sujeito entregue às verdades prontas e ao mecanicismo da nova lógica escravocrata do pensamento, só restará a grande vedete dos nossos tempos no Brasil da era Lula: a mamata dos concursos públicos.
Sociedade imbecilizante e medíocre, abriram a porteira!
(Na imagem ao lado, um Terminal de Integração de São Luís em horário de pico)

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Heidegger e a Psicanálise


Por mais que saibamos das nuances que fundam as bases teóricas de Heidegger e Lacan, é inevitável numa aproximação maior, não se dar conta da semelhança entre algumas idéias que permeiam o pensamento dos dois autores.

A arrogância dos psicanalistas e o desprezo dos filósofos podem encobrir algo que de alguma forma aparece como uma ponte entre a psicanálise e a filosofia. É bem verdade que em tempos de fragmentação e tecnização do pensamento, o objetivo daquilo que deveria ajudar as pessoas a elaborar as reflexões mais fundamentais (como a própria existência), a saber, as Ciências do Espírito, encontra-se há muito trivializado e esquecido pois elas se deixaram levar pelo automatismo da ténica. Isto faz com que cada vez mais as pessoas tendam a se fechar em suas "especialidades" e deixem de tentar pensar as coisas enquanto elas mesmas e, em nome de uma lógica engessante conceitual e categórica, não se permitam perceber relações por vezes tão claras como a idéia de um "mais além" que rege a vida humana tanto em Lacan quando em Heidegger.

Em Lacan temos a idéia do real como o que já sempre escapa, que já de alguma forma está sempre dado mas também sempre encoberto. O registro do real é como o pano de fundo onde se desenvolve qualquer possibilidade de idéia ou sentido, é aquilo que já está lá e sobre o qual se constrói qualquer imagem, significado, teoria como "sujeito", "mundo", "cultura", "moral", etc. Pode-se pensar como o "natural" que não traz significado nenhum por si só, mas de alguma forma está dado na medida em que oferece a "massa bruta" para a construção de nosso "mundo". Além deste registro temos o imaginário e o simbólico que constituem nosso sujeito. A via do imaginário encobre e reveste o real, como o nome diz, de imagem, nos possibilitando ver as coisas como coisas, o mundo como mundo. O simbólico é a linguagem. É o que determina todo o sentido e nos tira de um "estado natural". É o que nos permite assumir um lugar no mundo, uma identidade e nos dá um (o) sujeito. Numa analogia possível, considerando um quadro, o real seria o esboço sobre o qual se pinta e que escapa ao observador mas está lá como indicação através dos limites da pintura que o recobriu, o imaginário seriam os limites que constituiriam a imagem, a cobertura de tinta que lhe faz surgir e que lhe possibilita um sentido e o simbólico seria seu nome, o que lhe dá o sentido.

Os três registros se articulam com uma coisa fundamental que Lacan resgata de Freud: o das ding. Este das ding, esta "coisa" é chamado de objeto 'a' e diz justamente da falta de objeto. É algo além de qualquer capacidade de representação e nos coloca diante de uma falta que é constitutiva. O das ding é o indizível, aquilo que faz com que cada um seja único, que é completamente inconsciente e que dele só teremos notícia, sendo impossível encontrar objeto que o represente. Tem relação com a origem, com a morte, com a angústia, pois são questões para as quais nunca teremos resposta. É o que faz com que nunca tenhamos satisfação plena e mantém o sujeito desejante sempre. Este passará a vida toda, através dos registros do real, simbólico e imaginário, tentando inconscientemente encontrar algo que satisfaça isso que já desde sempre foi perdido. Ou seja, de todas as formas se tentará tamponar, cobrir, encobrir, velar, esta falta que é insuportável, mas que dá notícia de alguma forma sempre.

Pensando agora em Heidegger e sua analítica do Dasein, sua proposta essencialmente é responder à questão sobre o sentido do ser, que devido à sua obscuridade, sua aparente evidência e sua universalidade, foi deixado de lado em nome do desenvolvimento de um saber científico lógico, engessado, objetivo e fechado. Diante do aparente privilégio de um ente específico no tocante à relação com o ser, por estar em jogo com seu ser a cada instante, a saber, nós mesmos, o pensador alemão resolve tomar como horizonte liberador para o sentido do ser, uma analítica desse ente, o Dasein.

Na analítica do Dasein, Heidegger coloca como modo fundamental de ser desse ente, o ser-no-mundo. Este ente que a cada instante é no mundo tem uma relação de ocupação para com os outros entes que não possuem o caráter de Dasein, os chamados entes intramundanos (que são as coisas de modo geral). Nesta relação de ocupação com o mundo, o Dasein possui uma relação de instrumentalidade que é anterior a idéias como pensamento ou razão. Em seu modo de ser mais próprio ele já é na ocupação com as coisas, para então construir idéias sobre o mundo. A preocupação fundamental de Heidegger é com o âmbito ontológico, justamente com esse modo de ser fundamental, universal e primeiro.

Do ser já temos sempre certa compreensão, uma compreensão que será chamada de 'pré-ontológica', pois não o trazemos a cada instante como questão temática, por conta de nossa "familiaridade" para com ele desde sempre. Heidegger dirá que já temos acesso do ser em cada ente, mas que o ser não poderá ser apreendido por alguma teoria ou pensamento que interrompa seu fluxo. Isso se aplica aos entes em geral, e com o Dasein não é diferente. Heidegger dirá: "A analítica do Dasein não somente é incompleta como provisória.". Implica que apesar do acesso que temos a esse ser, ele sempre escapará a toda e qualquer definição possível. O ser sempre ultrapassará qualquer idéia construída a seu respeito.

Porém não se pode esquecer da relação que desde já temos com o ser. Como seria possível então essa relação se não podemos pensá-lo em sua plenitude? Novamente: nós já estamos em jogo com o ser a cada instante. Esta relação faz com que o ser apareça e se encubra, ou seja, a cada instante já temos uma compreensão de ser na medida em que ele nos escapa.

Da mesma forma que o das ding freudiano, o ser é um mais além. Na nossa relação de manualidade com as coisas nós precisamos racionalizá-las, teorizá-las, engessá-las, para apreendê-las. Não temos acesso consciente à relação mais imediata de ser-no-mundo-com-as-coisas. Assim como na psicanálise não temos acesso pleno ao real ou ao das ding. Heidegger está nos mostrando que temos este movimento de tentar roubar do velamento, mas que ao fazer isso, o ser se encobre, assim como a psicanálise mostra que usamos a cobertura do imaginário para lidar com a angústia da não representação de toda a falta. Na teoria heideggeriana a angústia surge como uma perda de mundo ôntico, ou seja, de todo sentido que a gente elaborou no trato com as coisas, é uma falta que surge diante da falta de sentido de uma realidade pura. Na psicanálise a angústia também surge quando temos esse acesso "descoberto" do real e da falta.

Resguardadas as diferenças teóricas, volto a dizer, com alguma serenidade é possível pensar uma aproximação entre a psicanálise e Heidegger, especialmente Lacan e Heidegger. Tal possibilidade é pouco levantada entre os teóricos das duas correntes, mas existem trabalhos de autores brasileiros que já trazem esse tipo de reflexão, como o Ernildo Stein e o Zejko Loparic.

O presente trabalho ainda carece de maior aprofundamento e dificilmente será levado adiante, pelo menos na graduação, mas a inquietação quanto à necessidade de lançar esta questão a outros gerou a motivação necessária para escrevê-lo. Perdão se tiver alguma confusão conceitual, especialmente diante da exposição dos conceitos psicanalíticos, dos quais ainda não tenho muito domínio. No mais, me esculhambem mas pensem um pouco!

Eterno retorno.

Porque nenhuma decisão é imutável, porque temos necessidade expressar o que sentimos...

sábado, 11 de setembro de 2010

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Neurótico obsessivo-pessimista

Sofro de estresse pré-traumático, acredito sempre que o pior ainda está por vir...

Azar na sorte, jogo no amor... E Psicologia.


Poderia-se dizer que "Azar na sorte, jogo no amor" é a forma abreviada da seguinte poesia de Paulo Leminski, de seu primeiro livro "Distraídos venceremos":

"Sorte no jogo, azar no amor.
De que me vale sorte no amor
Se o amor é um jogo
E o jogo não é o meu forte
Meu amor?"

De uma forma ou de outra é inevitável concordar com a idéia chata de amor como um jogo. Então, pensando dessa forma, vejamos o que algumas das principais abordagens da psicologia dizem sobre isso.

A Análise do Comportamento vê o amor como um comportamento como qualquer outro, logo podendo ser instalado através de esquemas de reforçamento. Ela diz que o esquema que instala o comportamento mais rapidamente é o de reforço contínuo, que expõe o sujeito repetidas vezes seguidamente ao mesmo reforço. Porém, o esquema mais eficaz para manter o comportamento e tornar difícil sua extinção, porém mais demorado, é o de reforçamento intermitente, onde o sujeito é exposto repetidas vezes ao reforço mas de forma alternada com outras contingências reforçadoras ou não dentro do mesmo ambiente. Dessa forma é possível imaginar como existem casais que brigam tanto mas não se separam.

A abordagem existencial-fenomenológica tem uns 50kg de livros e teorias que podem dizer sobre o amor, mas no geral considera-se o amor, assim como outros sentimentos e as emoções, como consciência, logo há intencionalidade e o eterno movimento em direção ao fenômeno de amar. Esta abordagem não tem a pretensão de explicar porque uma pessoa ama outra, mas visa compreender como se dá o fenômeno de amar para o ser amante.

Em Heidegger, o amor pode ser considerado como um humor ao qual o indivíduo se encontra lançado no mundo, mas parece melhor descrição para a paixão, que faz parte do amor. Este está mais relacionado ao cuidado, sendo assunto ôntico de cada um deixar-se levar pelas paixões ou assumir a relação de cuidado com o ser-amado autenticamente.

Em Sartre, pensando na idéia de relação humana como necessariamente conflituosa ("O inferno são os outros), pode-se ser levado a pensar que não há espaço para um amor que não seja egoísta, devido à inevitável sobreposição de projetos. De fato não há como escapar a certa forma de egoísmo mesmo, mas é possível se assumir autenticamente a responsabilidade de amar e de certa forma, escolher como projeto às vezes abrir mão de projetos em benefício do ser amado. Meio que "assumir autenticamente a inautenticidade". Na segunda fase de sua obra ele se volta ao marxismo e de certa forma retorna a uma idéia de Dukheim de que "uma anomia não significa liberdade" dando-lhe uma nova versão. Neste período, Sartre afirma que a forma verdadeira de liberdade é construída através de grupos, de comunidades, num engajamento por uma causa comum. Logo pode-se pensar agora num engajamento de amantes pela causa do amor. Em essência, não mudou muita coisa neste aspecto.

De qualquer forma, pensando na eterna capacidade auto-atualizante da consciência, pode pensar pelo menos porque os seres amantes são tão inconstantes.

Finalmente na psicanálise, temos talvez uma indicação mais precisa sobre este doloroso jogo, na noção de Édipo freudiana, e também na concepção winnicottiana de "mãe suficientemente boa". Em ambas o amor materno é uma espécie de protótipo que guiará toda vida sentimental da estrutura do sujeito na neurose e a falta é o carro-chefe da constituição do sujeito de modo geral.

Em Freud, no Édipo, a mãe tem de oferecer a falta ao filho para que ele possa sair do auto-erotismo e do narcisismo. As ausências da mãe às necessidades da criança em detrimento a outros assuntos de sua vida, que é algo normal, constituem condição necessária para que se instaure a lei e o ser humano entre na neurose. Caso contrário, se ele nega a lei (foraclusão) ou esta lei é "mal-instaurada", tornando-se "frouxa" de alguma forma, o indivíduo entrará na psicose ou na perversão, respectivamente. Conclui-se então que o amor materno está pareado com a falta nos primeiros momentos da constituição da pessoa, tornando esta relação presente pro resto da vida dela. A mãe que ama deve dar amor, mas acima de tudo tem que dar a falta. Um amor assim constituído se reflete naquela idéia que os neuróticos tem de que só valorizam algo depois que perdem.Logo o amor neurótico precisa da falta.

A concepção de Winnicott de "mãe suficientemente boa" é de que esta deve adaptar-se às necessidades do bebê, gerando nele a ilusão de que o seio é uma extensão dele mesmo e que ele exerce um controle mágico sobre este "objeto", para então gradativamente desiludí-lo fazendo-o ter que lidar com a frustração. Desta forma ela lhe proporcionará um desenvolvimento psiquicamente saudável, pois com o auxílio dos "objetos transicionais" este bebê irá desenvolver o conhecimento da diferença mundo interno/mundo externo, chegando assim à realidade. É uma idéia que se aproxima da idéia freudiana, logo esta mãe "ensina" desde cedo também que numa relação saudável deve haver amor e falta.

Destas teorias psicanalíticas então concebemos a relação com a idéia do senso comum de que "ciúme na medida certa faz bem à relação". Afinal nunca há confiança plena, e nosso narcisismo agora latente exige uma exclusividade que nunca saberemos ter plenamente.

De uma forma ou de outra, em qualquer uma dessas teorias há sempre uma abertura para a subjetividade, seja num repertório comportamental, na história de um aparelho psíquico ou num eu consciente. A existência concreta não tem como ser teorizada e cada situação é única. O amor é algo que acontece e o sentido atribuído a ele é sempre uma experiência individual. Zygmunt Bauman acredita que não há como "aprender a amar", logo amor não é treino e não há como "se tornar um amante melhor" pelo simples acúmulo de experiências. Deve-se ter uma "atitude fenomenológica" diante de algo tão belo, contingente e necessário e vivê-lo em todas as suas nuances. Ficar fazendo joguinhos às vezes sufocam uma vivência mais intensa e concreta do amor. Talvez eles sejam necessários, mas tudo e todos têm sua medida.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Anarquia? Sociedade alternativa? Acho que não.


É realmente incrível como todo movimento sério vira uma ferramenta burocrática engolida pelo próprio espetáculo outrora (e ainda) opressor. Seja movimento de grupos tidos como minorias, seja movimento nacionalista, separatista, trabalhista, vanguardista, ativista, artístico, ou especialmente partidarista (no caso do nosso país), o resultado é sempre o mesmo.

Não sei quanto a outros países, mas a impressão, de bom brasileiro que sou, que tenho de toda instituição é de que sejam sempre cheias de corrupção e jogos de interesses pessoais, dentro de algo que até certo tempo muitas das vezes se mantinha como uma luta séria e verdadeiramente engajada. Parece haver uma metamorfose no momento em que grupo "X" ou "Y" é reconhecido e legitimado pelo Estado. É ingenuidade não perceber que esta é a forma de controle vigente na sociedade do espetáculo.

Dessa forma todo movimento legitimado ganha ares de hipocrisia, independente da causa. Muitas das vezes, inclusive, se assemelham a empresas. Os partidos políticos são o exemplo mais nítido do problema no Brasil. Eles parecem flutuar de acordo com o "mercado", com seus "cartéis" e suas "franquias" autônomas. Aptas somente a lucrar independente de qualquer "política de empresa" que possa ter feito parte da fundação da determinada instituição. Vemos hoje na TV partidos historicamente rivais fazendo alianças locais, ou até mesmo nacionais, como no caso da união PSDB e PDT. Isso sem falar na novela do PT do Maranhão que fica entre o ideal e o concreto, ou vice-versa, em termos de sentido.

Enfim, parece não haver solução para este problema da hipocrisia/demagogia em instância nenhuma de nenhuma instituição. Poder-se-ia então pensar nas possibilidades mais absurdas como anarquia, movimento punk, etc., mas o que mudaria de fato? Eu não quero usar calça colada nem "spikes", e gosto demais do Mc Donalds e afins para querer ir plantar meu alimento no quintal de casa.

Algumas pessoas mais esperançosas dirão que mesmo com o problema da corrupção nas instituições, ainda existem pessoas que tentam fazer o que é certo. Tentam levar a sério a luta que lhes motivou inicialmente. E, de fato, existem sim. Mas boa parte das vezes estas também são forçadas a entrar no jogo, e o preço de uma recusa a este espetáculo é alto demais.

Devemos reconhecer a necessidade das instituições para a organização da sociedade, mas ter estômago para fazer parte de alguma delas voluntariamente é deveras complicado. Sartre diz que só há liberdade no grupo, na união, no engajamento da comunidade pelo bem-estar geral, em contraste com sua própria idéia de relações humanas conflituosas, porém de acordo com o que o próprio também afirma sobre a responsabilidade, e a consciência da liberdade.

Desta vez não tenho como tomar uma posição clara frente a este persistente dilema da existência: necessidade x vontade. Como diz o marciano amigo de Clark em Smallville, John Jones: "When it comes to choosing sides, things aren't always black and white."

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Amor e morte: algumas associações despretensiosas.


Amor e morte são uma combinação poderosa, segundo Daniel Gildenlow, vocalista da banda Pain of Salvation. Na quinta faixa do quinto álbum, o BE, ele coloca situações que misturam as duas idéias e causam um turbilhão se sentimentos poderosos que nos fazem refletir sobre o poder do amor e a brevidade da vida. As situações não falam de abandonos e decepções, mas mostram a inevitabilidade da extinção mesmo do que pode ser tão forte em nós. Talvez justamente este caráter perecível torne este sentimento tão poderoso, talvez a brevidade de tudo seja nosso traço mais marcante de humanidade.

Numa visão mais pessimista House diz que "Não há dignidade na morte.(...) Você pode viver com dignidade, mas nunca morrer com ela.". Para os amantes de verdade, nunca existiu aquele momento de abandono total do orgulho e amor próprio em nome de um sentimento considerado naquele instante como acima de tudo? A morte toma todas as glórias, e o amor, todo o equilíbrio. Tanto num quanto no outro a perda faz com que pareçamos impotentes e frágeis.

Enfim, como diria Amy Winehouse: "Love is a losing game". De uma forma ou de outra.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Psicologia, eu quero uma pra viver!


Imagino que todo graduando em psicologia deva passar pelo momento angustiante da escolha de qual abordagem orientará sua prática. E em uma Universidade como a Federal do Maranhão, as coisas são ainda mais complicadas porque o campo de possibilidades é muito reduzido. Tais graduandos se vêem obrigados a escolher entre Análise do Comportamento ou Psicanálise, uma vez que outras abordagens carecem de profissionais com boa experiência, fundamentados ou às vezes compromissados que pudessem orientar outras práticas psicológicas.

Aparentemente as abordagens dominantes se instalaram primeiro aqui e isto talvez seja uma boa explicação para essa limitação da psicologia maranhense. Apesar de que pelo tempo que o curso existe já deveríamos ter mais opções.

Mas existe também o problema da aceitação. Isto é, abordagens de cunho mais filosófico, logo que exigem mais leitura, talvez não sejam de interesse de uma sociedade imediatista como a nossa. A Análise do Comportamento oferece quase que uma pílula mágica com seus recortes e sua estrutura externalista de causa e efeito, chegando à pretensão de "dar alta" a seus clientes. E sim, causa e efeito, pois Skinner só conseguiu não ser tão ingênuo quanto seus predecessores. Ele encontrou boas desculpas para dar, inclusive extraindo idéias do humanismo. Quem nunca pensou na semelhança entre o conceito de discriminação e o conceito de ato intencional? Enfim, abordagem prato cheio para os funcionários da ciência, neuróticos obsessivos.

Mas a Psicanálise não é imediatista e também é bem complexa. Pode ter sido uma questão de marketing, ou do desejo das pessoas em procurar respostas no "sobrenatural", ou ainda por falar em energia sexual, o que mexe com o imaginário leigo, enfim, dizem que Freud foi o autor mais citado no século XX. De uma forma ou de outra, apesar de ser de uma boa complexidade e seu processo de tratamento ser às vezes demorado (depende do neurótico), o que talvez fosse um complicador, ela oferece um modelo pronto, um sistema fechado em que pra tudo se pode encontrar explicação. Isto é extremamente confortável, logo atrativo.

As abordagens existenciais fornecem boas críticas a esses modelos mais aceitos, o que é bom pro conhecimento teórico da psicologia, mas talvez na prática a coisa não funcione tão bem. O método utilizado no processo terapêutico dessas abordagens é filosófico e, talvez por minha leitura ainda ser razoável, parece impraticável. Muitas das vezes isso faz parecer mais uma "filosofia clínica" que propriamente uma psicologia. Existe também influência da psicanálise, como por exemplo na psicologia existencial sartreana. Mas o pior de tudo são as teorias de bom coração dos humanistas ingênuos que possuem fundamentação e método chulos, soando quase que como auto-ajuda às vezes.

De uma forma ou de outra o que resta é continuar buscando embasamento para minimamente se ter uma consciência necessária para fazer a melhor escolha e poder-se arcar com a correspondente responsabilidade.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Finitude e falta.


A psicanálise diz que o que nos move é a falta. Não há como discordar de que somos sujeitos que desejamos o desejo e não necessariamente a satisfação, afinal, segundo a mesma, satisfação total é impossível e significaria a morte caso não o fosse.

Em outras palavras o que dá sentido a cada pensamento ou ação nossa no mundo é a finitude das coisas, saber que nada dura para sempre. Ou, como diria Renato Russo, "o pra sempre sempre acaba".

Ter consciência da finitude não é tão simples. Podemos perceber, por exemplo, a força do fenômeno religioso nesta nossa tentativa necessária e própria de buscar a eternidade. Ninguém quer saber da sua morte. Ninguém quer começar um projeto com a consciência de que terá um fim. Este receio torna as pessoas fracas.

Estamos sempre buscando ter o controle do mundo, dos resultados de nossas ações, calculando probabilidades, fazendo experimentos, criando hipóteses sob a ilusória idéia de que estamos cada vez mais próximos da verdade. São sempre as "idéias claras e distintas" que prevalecem. Nietzsche já nos alertou para a perda das emoções, Heidegger alertou para a ditadura do impessoal, Sartre quis resgatar nossa liberdade através de uma ética da honestidade e autenticidade, Camus tenta nos retirar toda a esperança para devolver todas as forças, Bauman parte da construção de uma forma de organização social na modernidade para nos alertar do "enquadradamento" da vida, Guy Debord nos mostra como o espetáculo substitui o ser pelo ter, enfim, alguns exemplos de homens que perceberam os riscos de se viver sem querer assumir a vida (e a morte).
O que podemos perceber em cada autor desses é o desejo de deixar claro pro homem os riscos de uma vida sem responsabilidade. Não digo exatamente resgatar o caráter humano do homem (dizer o que é humano ou não é sempre algo polêmico) mas de fazê-lo ter consciência de sua liberdade e dos riscos de uma vida mecânica.

Especialmente com o Camus temos uma lição de força e resignação. Diante de um mundo absurdo, sem sentido por si só, existe uma consciência limitada, porém revoltada, que retira de sua impossibilidade de plenitude sua beleza e força.

É justamente por esse caráter decorrente do eterno jogo entre ser e não-ser (nada), que não podemos prever o resultado de nossas escolhas. Mas ainda assim somos condenados a escolher. É como o Sartre diz, se a consciência atingisse todas as suas possibilidades, ela se tornaria coisa. Parece ser assim que a falta está presente em sua teoria.

A relação falta/finitude talvez não tenha sido devidamente esclarecida, mas o leitor mais familiarizado com as teorias psicológicas deve lembrar do velho impasse entre a logoterapia e a gestalt quando uma diz que a vida é um fluxo, logo não se podendo "fechar gestalts" ao longo dela, e a outra diz que fechamos gestalts sob a pena da possibilidade de não conseguirmos prosseguir. Percebe-se que a teoria da gestalt parece fazer mais sentido no tocante ao que foi levantado aqui sobre a finitude, principalmente levando em consideração a idéia de que o homem é um hermeneuta do seu mundo e lhe dá sentido a cada instante e em cada ação.

Em resumo, o homem dotado do caráter da consciência que é sempre movimento, a cada instante, tem para si a possibilidade de poder ser si-mesmo, ou se atualizar, tal qual encontramos no homem e o rio de Heráclito. Podendo se renovar a cada instante, uma consciência que é sempre um movimento incompleto, gera sempre falta, pelo próprio desvelamento/encobrimento do ser, num caráter mais ontológico, pois o homem nunca poderá esgotar todas as suas possibilidades (talvez na morte, mas isto é outra questão). Então a cada instante de sua vida ele poderá começar e terminar várias coisas até a sua morte e isso está intrínseco à sua condenação à liberdade de escolha e ao que Husserl chama de ato doador de sentido. Ele sempre carregará o peso da responsabilidade de escolher sem poder controlar os resultados das escolhas.
Pode parecer angustiante, mas quem disse que a vida é fácil?

terça-feira, 30 de março de 2010

Escolhas, angústia, receios, vida.


Você sempre foi uma pessoa ridiculamente normal, como todo mundo. Uns dilemas existenciais aqui, umas depressõezinhas ali, mas fatores talvez facilmente atribuíveis à adolescência. Mas você não ficou por aí. Você tinha que ir atrás de algo pra preencher o vazio, e como relações afetivas, que parecem ser as únicas coisas que importam na vida de um adolescente, nunca foram seu forte, você precisava sublimar isso através de algo.

Então vem a sede por conhecimento. Você tenta entrar de cara em Kant, absurdo! É lógico que querer ler a Crítica da Razão Pura sem ter lido ao menos uns 5 filósofos antes é praticamente impossível. Além do mais, o que você queria mesmo na época era um guia de vida, afinal você estava completamente perdido neste mundo, e já naquele tempo, mas sobretudo mais tarde, você ia perceber o quanto a filosofia o deixa mais perdido ainda.

Ser filósofo é ser angustiado. É ter sempre o mundo posto em questão a cada instante. Nada deve ser aceito passivamente, sem questionamento, pois o filósofo tem compromisso com a verdade. Sabe da impossibilidade de êxito de tal missão, que o mundo não pode oferecer um sentido próprio por si só, e mais, que a beleza de sua tarefa depende necessariamente da impossibilidade de se criar uma verdade absoluta.

Parece contraditório, mas a contradição é algo perfeitamente aceitável diante do absurdo da existência, da falta de sentido que nos obriga a dar sentido às coisas. Isto é que nos mantém em movimento, existencialmente a consciência jamais pode ser plenitude, senão se torna coisa, deixa de ser possibilidade, então jamais esgotará seu objeto. Em jargão psicanalítico, a falta é o que nos move. Somos sujeitos desejantes e se atingirmos a plenitude, o desejo que é a "energia" da nossa psiquê cessa, então viramos "coisa" do mesmo jeito, através da morte.

Os caminhos do pensamento são vários. Às vezes dizem a mesma coisa de forma tão diferente que realmente parecem coisas diferentes. Tudo depende do sentido que se atribui, e em última instância, diria que de crença. Vivemos um mundo de representações sociais para Durkheim ou Moscovici, linguísticas para a psicanálise, fenomênicas para Kant, fenomenais para Husserl, ônticas para Heidegger, enfim, fechando com Sartre, nós damos sentido ao nosso mundo, somos hermeneutas do nosso mundo. Quando escolhemos, escolhemos não só pra gente como pro mundo, ao qual damos sentido.

Quando se tem estas idéias minimamente clarificadas para a consciência, é inevitável o angustiar-se. Às vezes dá vontade de desistir de tudo. A cada dia surge um pensamento novo. E você já não sabe mais em quem acreditar. Isso é difícil. Você se sentirá impelido a buscar mais autores, mas em momentos de fraqueza você sente como se fosse uma tarefa em vão. Principalmente se você vive em uma sociedade de consumo onde a todo instante lhe impõem a necessidade de um bom salário e um carro do ano. Não é que o filósofo não deva consumir e ter seu carro, mas é que carregar o peso da existência autenticamente é tão difícil que o indivíduo pode sim se render ao conforto e/ou ao hedonismo pós-moderno, abandonando seu ofício enquanto ser-no-mundo.

Os receios aumentam quando nos damos conta de que a realidade se expandiu. A era virtual é uma realidade (com o perdão da repetição e da antítese). Agora são muito mais elementos que temos de perceber e compreender. Temos que permanecer trafegando entre esses mundos que se refletem, mas ainda assim são diferentes. E para nos sentirmos pertencentes ao nosso tempo, temos que estar "conectados" com ambas as realidades o tempo inteiro.

Para finalizar, não é tão difícil notar que a tarefa filosófica aumentou, não somente pelos fatores elencados, mas até mesmo por outros que se relacionam com estes também, inclusive um que é bem mais fácil perceber: as pessoas não querem pensar. Aqueles que se interessam por estas que deveriam ser questões fundamentais na vida de cada um continuam sendo poucos.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Ditadura da saúde.


O homem sempre desejou ser eterno e a técnica hoje propicia uma qualidade de vida sem precedentes na história da humanidade. Mas que qualidade e que vida seriam essas? Quer dizer, qual o preço dessa busca pela fonte da juventude?

Com o dilúvio de informações do nosso tempo, as pessoas tem a necessidade de estarem conectadas sempre com as últimas novidades do que acontece no mundo. Por questões mesmo de sobrevivência, afinal o mercado de trabalho é dinâmico e seguiu o ritmo das mudanças ocorridas se tornando bem mais rígido.

Mais rígidos também se tornaram os padrões estéticos, pois aquela atriz magrinha e bonita que aparece na TV já deixou o segredo de sua "Boa Forma" em alguma revista ou site por aí. O bombadão da novela das oito que aparece semi-nu lembra aos homens todo dia daquela quase nem sempre discreta barriguinha de chopp (e às suas respectivas companheiras também).

Tem ainda a questão do envelhecimento. "Envelheça com saúde", "Conheça os milagres da dieta de grãos", "Os benefícios da ração humana". Todos os dias aparecem dicas de saúde em todos os veículos de informação e as pessoas neste afã de se tornarem jovens para sempre, se submetem a todo tipo de "tortura". Quando o desejo de prolongar a vida se torna mais importante que vivê-la, o vazio é inevitável.

Criou-se na atual sociedade uma verdadeira "ditadura da saúde". Os jovens que estão mais suscetíveis aos estímulos da nova era são a principal vitrine dessa pressão toda. É a juventude do exagero. Ou a menininha fica anorexa de tanto comer folha, ou o rapazote fica burro e doente de tanto anabolizante pra pelo menos parecer saudável. O importante é a forma independente do conteúdo. Temos também as drogas que estão chegando cada vez mais cedo na vida deles e em um nível de consumo cada vez mais alto.

A "ditadura da saúde" está diretamente vinculada às restrições e imposições que até agora só tem surtido efeito contrário. Algo para se refletir é o caso dos Estados Unidos na época em que foi proibida a comercialização e o consumo de álcool. Surgiu um verdadeiro mercado negro que rendeu muito dinheiro aos que praticavam este comércio então excuso e muita violência pra todo povo americano. A saída para o governo foi legalizar o consumo novamente para conter o problema. No Brasil, onde a ignorância e a corrupção predominam, está começando um movimento de proibição de tudo. Em muitas cidades os lugares não podem funcionar depois de determinado horário e não se pode mais fumar em lugar nenhum. Tudo isso com o intuito de diminuir uma violência que é consequência de diversos outros fatores que não a diversão noturna. Apesar de não ser muito adequado o palavreado científico, mais uma vez estão tentando atacar diretamente o problema em vez de suas causas.

E assim continuamos nossas vidinhas medíocres. Seguindo receitas de bolo de "como ser feliz" que surgem a todo instante, tornando-nos Barbie's e Ken's do modelo imposto, aderindo a um moralismo hipócrita e absurdo, fazendo cara feia pros fumantes no ponto de ônibus (onde praticamente não existe fumaça), indo em busca de ideais vendidos que nos deixam incapacitados de fazer qualquer juízo crítico, enfim, abrindo mão de nossas escolhas e consequentemente de nossa condição humana.

Então o "viver com qualidade" não é comer ração humana, nem precisa ser uma diária tentativa de suicídio. Só precisamos tentar ser conscientes de que nós damos sentido a nossa existência e essa responsabilidade ninguém nos tira, nem teria como. Então por mais que hajam dicas de um modelo de felicidade, devemos lançar um olhar a partir de nossa vivência do sentido que aquilo possa ou não fazer pra gente. Porque "...a vida é pra valer e não se engane não é uma só. Duas mesmo que é bom ninguém vai me dizer que tem sem provar muito bem provado com papel passado em cartório do céu e assinado embaixo: 'Deus', e com firma reconhecida", como dizia o poeta Vinícius de Moraes em seu Samba da Benção.

As determinações sempre estão aí, mas o que fazer com elas é escolha nossa.